segunda-feira, 18 de julho de 2016

"Me senti, pela primeira vez na vida, bonita de verdade"

Nesse blog não poderia faltar um espaço para que as pessoas falem de suas experiências com seus cabelos e, inaugurando a sessão depoimentos, temos a história da jornalista Amanda Figuerôa, que conta, de maneira bem divertida, como foi o seu processo de transição capilar, que começou com a ajuda do namorado. Bora ver a história dela? (Envie seu depoimento pro email contato@nosdefada.com para ver sua história por aqui!)

Cabelos de Amanda antes da transição

"Não, eu não consigo acreditar no que aconteceu... É um sonho meu, nada se acabou. Não é impossível, não consigo viver sem você, volte e venha ver, tudo em mim mudou"... 🎧 Vocês conhecem essa música "Impossível acreditar que perdi você"?! Pois foi com esse drama musical que minha vida foi embalada depois no último abril. Sim, chorei muito, sou dessas. Vi minha vida passar por mim, achava que Maria Do Bairro (minha mexicana predileta) não poderia ter sofrido mais do que eu quando perdi minhas lindas e quase longas madeixas, que estava, por sinal, tentando deixar na cintura desde que me entendo por gente.

Dei alisamento no meu cabelo aos 9 anos de idade. Minhas amigas do colégio eram lindas, magras, estilosas e a maioria de cabelo liso. Eu era a "ovelha velha". A mais alta, a mais gordinha saliente, e a de cabelo cacheado volumoso. Eu tinha traços fortes, largos. Achava que eu tinha que mudar algo em mim e acredito que o cabelo é o primeiro passo de mudança na vida de uma mulher. Então eu mudei: alisei meus cachinhos sem dó. Ele ficou quebradiço, fraco, não parava de ter  cheiro de química. Estava mais lascado do que assalariado no final do mês, no entanto, eu me sentia linda, poderosa e igual. Ah, ser igual, para mim, era muito diferente e difícil. Por conta da raiz cacheada, logo, logo se via que aqueles fios não eram originais, mas eu não deixava terem vida própria; tascada mais alisante.

E assim cresci. Nem os amigos íntimos tinham noção de como era o meu cabelo. E nem eu mesma. Usei todas as técnicas possíveis para deixá-los lisos, com pouco volume e retos: passei por alongamento, alisamento, progressiva, escova de chocolate, de morango, marroquina, inteligente, definitiva... Ufa! Sei que me sentia bem e isso era o que importava. Mas a real é que apesar de me sentir "bem" com a aparência eu sabia que aquela não era eu. Uma escrava dos tempos modernos, da ditadura da beleza, do marketing dos lisos. Quando parei para refletir, decidi mudar. Decidi que ia largar a escova e a chapinha diária para dar só escova e baby liss. Ka ka ka (risada irônica)! Pronto, foi queimando meu cabelo  que decidi ter as pontas dos fios quimicamente ~ naturais. Não saía de casa sem alisar a raiz e enrolar as pontas. Me sentia a Gisele de Boa Viagem. Ka ka ka de novo!

Um belo dia Deus mandou acabar com essa palhaçada toda. Colocou um homem feminista na minha vida pra eu acabar com frescura e esteriótipos. Quando o conheci eu não só tinha o cabelo na progressiva, como tinha luzes (Tá pouco, colega, lasca mais teu picumã né?!) e ainda dava o tradicional combo escova + baby liss. Ele achava lindo meus cabelos e meus falsos cachos. Certo dia me abestalhei, tomei banho e deixei a água cair nos fios. Junto com a água o meu mundo caiu também. Gente, como eu ia secar, alisar, chapar e fazer os cachos no meu hair se eu tava na casa do bofe?? Ele não poderia descobrir a real Amanda que existia. Ela era feia e cacheada, droga!  Tsc tsc Parece que Deus falou no meu ouvido na hora: "Molier, deixa de tua frescura! Amarra um pitó e vai se jogar. Dorme que seca!". Pois assim o fiz: quando acordei, eu queria matar essa voz que mandou eu dormir de cabelo molhado! Os fios amanheceram Tooooooodoos cacheados! Raras eram as partes que resistiram à química.

Como Amanda ficou depois do primeiro corte
Quando eu estava escondidinha no quarto tentando não morrer de vergonha do meu namorado, ele resolveu abrir a porta, do nada, pra perguntar algo. Suas primeiras palavras foram: "Meu Deus, o que tu fez no cabelo"? Claro que meu mundo caiu de novo, né? Eu queria me jogar pela janela, queria me cortar com o clip que tinha perdido, queria ser uma ema pra enterrar minha cabeça no chão... Engoli seco e estava decidida que iria contar a verdade sobre meu passado inglório. Foi quando ele completou a frase, antes mesmo que eu pudesse me "desculpar": "Ficou massa! Tu deveria usar esses produtos pra enrolar o cabelo, sabia? Combinou mais". Seria cansativo eu dizer que meu mundo caiu de novo? Gente, para que eu quero descer! COMO ASSIM meu namorado me achava mais bonita com um cabelo genuíno? Ele não sabia que meu custo para manter uma aparência de liso/ondulado era de uma alma e meu salário e meio? O que ele disse foi tão encantador que me senti uma merda. Tantos anos investindo numa cabeça que não era a minha, para que, ao final, a única pessoa que me importava a opinião (eita, ó a mentira) dissesse que preferia eu natural.

Pois bem, inventei de usar esses "produtos pra enrolar o cabelo", como ele indicou. Amassei os fios como se não houvesse o amanhã. Me senti, pela primeira vez na vida, bonita de verdade. Juro! Juro também que chorei quando vi meus cachos querendo respirar em meio a tanta danação de química. Comecei a devorar notícias para cabelos crespos, seguir blogueira, instagrammer e o diabo a quatro. Descobri a tal da transição capilar. Com ajuda do boy magia, tive coragem de cortar. Mas eu fui crente que iria só tirar as pontas quebradiças. Quando a cabeleireira olhou pra minha cara disse logo que eu tinha que cortar estilo joãozinho pra tirar a PARCIAL do alisado. Morri, né? Mas, eu disse que não queria não. Era melhor deixar no tamanho médio porque não me acostumaria. Pois a bicha disse que iria cortar de um jeito que eu ou a amaria ou a odiaria para sempre. Foi lá e... Tirou quase minha vida pela tesoura. A tesoura do desejo de mudar... Quando me vi no espelho não sabia se chorava ou dava escândalo. Me senti esquisita, feia, masculina. Meu namorado, claro, amou. E eu... Achava que tinha odiado.

Depois de três meses, ela cortou as madeixas novamente
Fui pra casa chorar e comer chocolate, pensando em como eu iria escovar os cabelos se a escova não conseguia nem pegar direito neles. Resultado? Em três meses eu cortei mais curto ainda, estou livre daquele mal que me afligia: o medo de ser eu mesma. Hoje eu ainda dou aquela arrumada na franja com baby liss, afinal, ainda tem resto de produto, acreditam? Mas é aquele ditado, né: fazer o que? Rs

O importante é que o uso do secador e da chapinha se tornaram opcionais. Uso se eu quiser e não porque preciso para ser "bonita". Consigo me encarar no espelho e vejo o quanto de cacho ainda tem pra se transformar e ME transformar. Hoje eles são meus filhos: amo e não deixo ninguém botar defeito. Meu desejo é que todas as mulheres se aceitem do jeito que são. Estamos todos caminhando para uma nova era de gente mais consciente e integrada. A revolução é real e ela é crespa!"

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